Cirurgias plásticas reforçam ideal do corpo como capital social
Carlos Haag
Edição Impressa 187 - Setembro 2011
"A cirurgia plástica é um crime contra a religião e os bons costumes. Mudar a cara que Deus nos deu, cortar a pele, coser os peitos e quem sabe o que mais, vade retro.” É assim que Ponciana, personagem do romance Tereza Batista cansada de guerra, de Jorge Amado, reage ao ver a vizinha, dona Beatriz, “renovada”, com “rosto liso, sem rugas nem papo, seios altos aparentando não mais de trinta fogosas primaveras, num total descaramento, a glorificação ambulante da medicina moderna”. Imagine--se como ela reagiria hoje, ao saber da pesquisa recente do Ibope em conjunto com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP): no Brasil a cada minuto é realizada uma operação plástica, 1.700 por dia, um total anual de 645 mil, que só nos deixa atrás dos Estados Unidos, com 1,5 milhão de cirurgias. Das intervenções nacionais, 65% são só cosméticas e as mulheres são as maiores clientes: 82%. A preferência nacional é pela lipo (30%), seguida pela prótese de silicone (21%). Nos últimos cinco anos aumentou em 30% a procura da plástica estética também pelos homens.
“O que fez a plástica virar quase obrigação, com uma demanda crescente em todas as regiões e segmentos sociais? O país é o único que oferece plásticas pelo sistema público de saúde (15% do total) e clínicas particulares têm até carnês de prestações”, diz o antropólogo americano Alexander Edmonds, da Universidade de Amsterdã e autor de Pretty modern: beauty, sex and plastic surgery in Brazil, recém-lançado nos EUA pela Duke University Press. “No Brasil não basta ser magra. A mulher tem que ser sarada, definida, sensual. Mais do que boa mãe, profissional competente e esposa cuidadosa, ela tem que enfrentar o ‘quarto turno’ da academia, correndo atrás de um corpo sempre inatingível. O maior algoz da mulher brasileira é ela mesma, que vive procurando aprovação de outras mulheres. Temos que pensar numa mulher que comporte falhas, não criminalize seu corpo por fugir aos padrões e que aproveite momentos como a maternidade sem querer voltar às pressas à forma anterior”, explica Joana de Vilhena Moraes, coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio) e autora de Com que corpo eu vou? Sociabilidade e usos do corpo nas mulheres das camadas altas e populares (Editora Pallas/PUC--Rio), livro que traz os resultados de uma pesquisa financiada pela Faperj sobre os padrões estéticos em diferentes camadas sociais. “Descobrimos que, se a procura do corpo perfeito é democrática, desejo de mulheres ricas ou pobres, há diferentes conceitos de beleza. Entre as ricas, qualquer sacrifício vale a pena para ganhar a magreza das modelos. Entre as mais pobres, o bonito mesmo é o corpo farto e curvilíneo das dançarinas de pagode. O que diverge entre os grupos é o sofrimento: as ricas se escondem sob roupas largas; as pobres exibem a gordura sem pudor em microshorts e tops justos.” Segundo ela, isso não impede que também malhem e fiquem nas filas dos hospitais públicos para fazer plástica estética. “A mídia, com apoio do discurso médico, estimula que as mulheres recorram a esses expedientes que evitam a constatação das mudanças da sua subjetividade, valendo-se, para isso, do estágio atual de evolução das ciências biotecnológicas, nas quais o país é respeitado globalmente.”
Curiosamente, segundo Edmonds, por muito tempo a cirurgia cosmética não foi vista como medicina legítima e para ganhar a aceitação precisou ser transformada em “cura”, aliando-se à psicologia: conceitos como “complexo de inferioridade” deram à operação um fundamento terapêutico. “O cirurgião Ivo Pitanguy foi o responsável por diluir os limites entre as cirurgias estética e reparadora, já que ambas curariam a psique. Para ele, o cirurgião plástico seria um ‘psicólogo com bisturi’ e o objeto terapêutico real da operação não seria o corpo, mas a mente”, nota o americano. Mas há consequências sobre a profissão. “A saúde é, agora, um guarda-chuva simbólico e não se restringe a permanecer na normalidade médica: é cuidar da forma, do peso, da aparência. A ‘saúde’ se estetizou”, analisa Francisco Romão Ferreira, professor do PGEBS (Programa de Pós-Graduação no Ensino de Biociências na Saúde do IOC/Fiocruz) e autor da pesquisa Os sentidos do corpo – Cirurgias estéticas, discurso médico e saúde pública. “Há uma pseudodemocratização da tecnologia que leva as pessoas a pensar que o processo é simples e com poucos riscos, e recém-formados em medicina migram para esse filão do mercado, que faz com que esses profissionais alertem para a banalização das cirurgias. É uma ruptura com a medicina tradicional que tem no corpo seu campo de ação. Essa medicina, ao contrário, se inscreve na superfície do corpo, com critérios subjetivos fora dele. A doença é criada artificialmente no âmbito da cultura, fora do corpo, mas que começa a fazer parte dele.”
“A beleza física ligou-se ao imaginário nacional e global do Brasil e é impossível conceber a identidade brasileira sem um componente estético, uma ‘cidadania cosmética’ que não significa direitos reais, mas forma de reproduzir desigualdades sociais e estruturais”, afirma o antropólogo Alvaro Jarrin, da Duke University, autor da pesquisa Cosmetic citizenship: beauty and social inequality in Brazil. É o que Edmonds chama de “saúde estética”, uma mistura de direito à saúde com consumismo. “Se o povo não realizou sua cidadania, ao menos pode se ‘refazer’ como ‘cidadão cosmético’. Os socialmente excluídos viram ‘sofredores estéticos’. A saúde sempre foi vista como bela; no Brasil, a beleza se transformou em saudável.” Para Jarrin, Pitanguy entendeu essa necessidade dos pobres por uma cidadania da beleza ao criar o primeiro serviço de cirurgia plástica popular num hospital-escola, ganhando apoio do Estado como um serviço filantrópico. “O governo é cúmplice e capitaliza indiretamente o sucesso do desenvolvimento das cirurgias de beleza”, nota. “O direito à cirurgia cosmética nunca foi diretamente autorizado pelo SUS, mas, por redefinições engenhosas do que é saúde, médicos fazem plásticas cosméticas em hospitais públicos, onde podem praticar com poucos riscos de processos por erros, desenvolvendo o ‘estilo brasileiro’, exportado para todo o mundo”, acredita Edmonds.
“Assim, as representações do corpo da mulher brasileira não são mais pela ‘verdadeira natureza perdida’, expressão da mistura das raças, mas produto da associação entre essa noção antiga e as técnicas mais modernas, uma intimidade perigosa entre prótese e carne. Num país cuja imagem é a ‘beleza natural’, a valorização das técnicas cirúrgicas dos médicos brasileiros é um paradoxo”, avalia a historiadora Denise Bernuzzi de Sant’Anna, coordenadora do grupo de pesquisa A Condição Corporal, da PUC-SP, e autora de Corpos de passagem: ensaios sobre a subjetividade contemporânea. “Mas a liberdade de construir o próprio corpo não escapa a exigências como ser jovem e a obsessão pela alegria sem escalas e em curtíssimo prazo, em que cada um é responsável pelo sucesso ou fracasso em função do culto ao corpo ou seu descuido”, avalia. “O problema não é o cuidado de si, mas fazer do corpo um território que dispensa o contato com quem é diferente de nós; não gostar de alguém pelo seu corpo.” Uma segregação com objetivos definidos. “Sofrer para ter um corpo ‘em forma’ é recompensado pela gratificação de pertencer a um grupo de ‘valor superior’. O corpo identifica a pessoa a um grupo e o distingue de outros. Este corpo ‘trabalhado’, ‘malhado’, ‘sarado’, é, hoje, um sinal indicativo de certa virtude. Sob a moral da boa forma, ‘trabalhar’ o corpo é um ato de significação como se vestir. Ele, como as roupas, é um símbolo que torna visível as diferenças entre grupos sociais”, observa a antropóloga Mirian Goldenberg, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), autora de O corpo como capital e que analisou o fenômeno na pesquisa Mudanças nos papéis de gênero, sexualidade e conjugalidade, apoiada pelo CNPq.
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“O que fez a plástica virar quase obrigação, com uma demanda crescente em todas as regiões e segmentos sociais? O país é o único que oferece plásticas pelo sistema público de saúde (15% do total) e clínicas particulares têm até carnês de prestações”, diz o antropólogo americano Alexander Edmonds, da Universidade de Amsterdã e autor de Pretty modern: beauty, sex and plastic surgery in Brazil, recém-lançado nos EUA pela Duke University Press. “No Brasil não basta ser magra. A mulher tem que ser sarada, definida, sensual. Mais do que boa mãe, profissional competente e esposa cuidadosa, ela tem que enfrentar o ‘quarto turno’ da academia, correndo atrás de um corpo sempre inatingível. O maior algoz da mulher brasileira é ela mesma, que vive procurando aprovação de outras mulheres. Temos que pensar numa mulher que comporte falhas, não criminalize seu corpo por fugir aos padrões e que aproveite momentos como a maternidade sem querer voltar às pressas à forma anterior”, explica Joana de Vilhena Moraes, coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio) e autora de Com que corpo eu vou? Sociabilidade e usos do corpo nas mulheres das camadas altas e populares (Editora Pallas/PUC--Rio), livro que traz os resultados de uma pesquisa financiada pela Faperj sobre os padrões estéticos em diferentes camadas sociais. “Descobrimos que, se a procura do corpo perfeito é democrática, desejo de mulheres ricas ou pobres, há diferentes conceitos de beleza. Entre as ricas, qualquer sacrifício vale a pena para ganhar a magreza das modelos. Entre as mais pobres, o bonito mesmo é o corpo farto e curvilíneo das dançarinas de pagode. O que diverge entre os grupos é o sofrimento: as ricas se escondem sob roupas largas; as pobres exibem a gordura sem pudor em microshorts e tops justos.” Segundo ela, isso não impede que também malhem e fiquem nas filas dos hospitais públicos para fazer plástica estética. “A mídia, com apoio do discurso médico, estimula que as mulheres recorram a esses expedientes que evitam a constatação das mudanças da sua subjetividade, valendo-se, para isso, do estágio atual de evolução das ciências biotecnológicas, nas quais o país é respeitado globalmente.”
Curiosamente, segundo Edmonds, por muito tempo a cirurgia cosmética não foi vista como medicina legítima e para ganhar a aceitação precisou ser transformada em “cura”, aliando-se à psicologia: conceitos como “complexo de inferioridade” deram à operação um fundamento terapêutico. “O cirurgião Ivo Pitanguy foi o responsável por diluir os limites entre as cirurgias estética e reparadora, já que ambas curariam a psique. Para ele, o cirurgião plástico seria um ‘psicólogo com bisturi’ e o objeto terapêutico real da operação não seria o corpo, mas a mente”, nota o americano. Mas há consequências sobre a profissão. “A saúde é, agora, um guarda-chuva simbólico e não se restringe a permanecer na normalidade médica: é cuidar da forma, do peso, da aparência. A ‘saúde’ se estetizou”, analisa Francisco Romão Ferreira, professor do PGEBS (Programa de Pós-Graduação no Ensino de Biociências na Saúde do IOC/Fiocruz) e autor da pesquisa Os sentidos do corpo – Cirurgias estéticas, discurso médico e saúde pública. “Há uma pseudodemocratização da tecnologia que leva as pessoas a pensar que o processo é simples e com poucos riscos, e recém-formados em medicina migram para esse filão do mercado, que faz com que esses profissionais alertem para a banalização das cirurgias. É uma ruptura com a medicina tradicional que tem no corpo seu campo de ação. Essa medicina, ao contrário, se inscreve na superfície do corpo, com critérios subjetivos fora dele. A doença é criada artificialmente no âmbito da cultura, fora do corpo, mas que começa a fazer parte dele.”
“A beleza física ligou-se ao imaginário nacional e global do Brasil e é impossível conceber a identidade brasileira sem um componente estético, uma ‘cidadania cosmética’ que não significa direitos reais, mas forma de reproduzir desigualdades sociais e estruturais”, afirma o antropólogo Alvaro Jarrin, da Duke University, autor da pesquisa Cosmetic citizenship: beauty and social inequality in Brazil. É o que Edmonds chama de “saúde estética”, uma mistura de direito à saúde com consumismo. “Se o povo não realizou sua cidadania, ao menos pode se ‘refazer’ como ‘cidadão cosmético’. Os socialmente excluídos viram ‘sofredores estéticos’. A saúde sempre foi vista como bela; no Brasil, a beleza se transformou em saudável.” Para Jarrin, Pitanguy entendeu essa necessidade dos pobres por uma cidadania da beleza ao criar o primeiro serviço de cirurgia plástica popular num hospital-escola, ganhando apoio do Estado como um serviço filantrópico. “O governo é cúmplice e capitaliza indiretamente o sucesso do desenvolvimento das cirurgias de beleza”, nota. “O direito à cirurgia cosmética nunca foi diretamente autorizado pelo SUS, mas, por redefinições engenhosas do que é saúde, médicos fazem plásticas cosméticas em hospitais públicos, onde podem praticar com poucos riscos de processos por erros, desenvolvendo o ‘estilo brasileiro’, exportado para todo o mundo”, acredita Edmonds.
“Assim, as representações do corpo da mulher brasileira não são mais pela ‘verdadeira natureza perdida’, expressão da mistura das raças, mas produto da associação entre essa noção antiga e as técnicas mais modernas, uma intimidade perigosa entre prótese e carne. Num país cuja imagem é a ‘beleza natural’, a valorização das técnicas cirúrgicas dos médicos brasileiros é um paradoxo”, avalia a historiadora Denise Bernuzzi de Sant’Anna, coordenadora do grupo de pesquisa A Condição Corporal, da PUC-SP, e autora de Corpos de passagem: ensaios sobre a subjetividade contemporânea. “Mas a liberdade de construir o próprio corpo não escapa a exigências como ser jovem e a obsessão pela alegria sem escalas e em curtíssimo prazo, em que cada um é responsável pelo sucesso ou fracasso em função do culto ao corpo ou seu descuido”, avalia. “O problema não é o cuidado de si, mas fazer do corpo um território que dispensa o contato com quem é diferente de nós; não gostar de alguém pelo seu corpo.” Uma segregação com objetivos definidos. “Sofrer para ter um corpo ‘em forma’ é recompensado pela gratificação de pertencer a um grupo de ‘valor superior’. O corpo identifica a pessoa a um grupo e o distingue de outros. Este corpo ‘trabalhado’, ‘malhado’, ‘sarado’, é, hoje, um sinal indicativo de certa virtude. Sob a moral da boa forma, ‘trabalhar’ o corpo é um ato de significação como se vestir. Ele, como as roupas, é um símbolo que torna visível as diferenças entre grupos sociais”, observa a antropóloga Mirian Goldenberg, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), autora de O corpo como capital e que analisou o fenômeno na pesquisa Mudanças nos papéis de gênero, sexualidade e conjugalidade, apoiada pelo CNPq.
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