segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O Vale: Rico consome três vezes mais água do que pobre em S. José

Jardins Aquarius, Esplanada e Apolo, na zona oeste, lideram consumo; bairros carentes do leste são os mais econômicos

Filipe Manoukian
São José dos Campos

Imagem: Victor Moriyama
Fonte: O Vale


Dona de uma pequena quitanda no Coqueiro, região leste de São José, Josilaine Lino da Silva, 49 anos, passa grande parte do dia preocupada em manter limpo o seu comércio. Bairro ilegal, nenhuma das ruas do Coqueiro é asfaltada. “Você limpa, mas logo fica sujo de novo”, diz Josilaine. Entre as armas contra o pó, vassoura, espanador e água.

O mais fácil, segundo conta Josilaine, é pegar a mangueira e esguichar a água pelo chão do comércio. Contudo, não é isso o que a empresária faz. “Tenho tantas coisas para pagar, se eu usar a água sempre que precisar, a conta vem muita cara. Mangueira só em último caso”.

A realidade é completamente diferente nas regiões mais ricas de São José. Uma rápida caminhada pelos bairros nobres da cidade, como o Jardim Aquarius, Altos do Esplanada, entre outros, estampa outro cenário.

Não raro, donas de casas, ou mesmo prestadores de serviço, como faxineiros e jardineiros, passam horas lavando quintais ou calçadas com o auxílio de mangueiras, ou regando plantas.

A estudante Andressa Vieira Lima, 18 anos, estagiária em um escritório de advocacia no Esplanada do Sol, é um exemplo. Ela evita o desperdício tentando ser rápida, mas o jardim é grande.

O contraste está nos números. Os bairros ricos José têm uma média de consumo de água quase três vezes mais alta do que os bairros mais carentes e periféricos.

Números. A pedido de O VALE, a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) mapeou o consumo de água por domicílios em São José. A região com menor consumo por residência é a leste, no setor composto pelos bairros Santa Inês 3, Capão Grosso, Bica da Água, Jardim São José e Coqueiro.

Os moradores desses bairros gastam, em média, pouco mais de R$ 23 com a conta de água por mês, o equivalente ao consumo de 11 mil litros.

Por sua vez, a região oeste é a que apresenta o maior consumo por domicílio, girando em torno dos 30 mil litros mensais --algo em torno de R$ 97.

O circuito é composto pelos bairros Jardim Aquarius, Altos do Esplanada, Jardim Imperial, Jardim Apolo, Jardim Alvorada, entre outros.

“As pessoas com maior poder aquisitivo têm carro, às vezes dois, três carros, que se ela não lavar em casa, o faz em algum posto ali perto, da mesma região. Essa pessoa também tem jardim, são pessoas que gostam de lavar com mais frequência a casa”, afirmou o superintendente da Sabesp Vale do Paraíba, Oto Elias Pinto.

Em seguida, ele alertou: “Também há excessos, principalmente dos prestadores de serviço, que às vezes fazem do esguicho da água a vassoura”.

Por mês, conforme o mapa da água da Sabesp, São José consome 3,3 bilhões de litros de água. A média de consumo, considerando toda a cidade, é de 17,9 litros por domicílio.

Rico em SP gasta menos água
São José dos Campos


A média do consumo de água nos bairros ricos de São José é 38,2% mais alta do que a média do bairro nobre campeão de consumo na capital do Estado.

Enquanto em São José a média gira em torno de 30 mil litros por mês, a média na região do Jardins, zona sul de São Paulo, é de 21,7 mil litros.

As características dos bairros em São José e São Paulo são semelhantes --amplos jardins, piscina--, mas é indiscutível que o poder aquisitivo na capital é maior do que em São José. “É lógico que em São Paulo o pico do poder aquisitivo é maior. O que pode acontecer é que lá você tem menos pessoas morando por domicílio. Às vezes mora uma pessoa por apartamento e isso e isso conta. Em São José, as regiões mais ricas são compostas mais por famílias”, afirmou Oto Elias Pinto.

O MAPA DO CONSUMO DE ÁGUA EM SÃO JOSÉ

Consumo
3,3 bilhões de litros
Com mais de 630 mil habitantes, São José consome diariamente 110 milhões de litros de água, chegando a uma média mensal de 3,3 bilhões de litros. A região sul, a mais populosa, é a que tem a maior participação, com 34%

Contraste
Triplo do consumo
A média de consumo de água dos bairros mais ricos é quase três maior do que a média em bairros periféricos mais carentes. O consumo de água nesses bairros nobres também representa quase o dobro em relação a média de consumo da cidade

Ricos
Região Oeste
Fazem parte da lista de campeões de consumo os bairros Jardim Aquarius, Altos do Esplanada, Jardim Imperial, Jardim Apolo, Jardim Alvorada e Jardim das Indústrias. A conta mensal de água é de quase R$ 100 por casa na região

Explicação
Poder aquisitivo
Amplos jardins, piscina, áreas gramadas, várias suítes. O preço pago pelo conforto é um maior consumo de água. Entretanto, a Sabesp alerta que muitas vezes ocorrem desperdícios, como uso excessivo de água na limpeza ou na jardinagem

Comparação
Maior do que a capital
A médio do consumo de água nos bairros nobres de São José supera a média dos bairros nobres da capital, São Paulo --mesmo sabendo-se que o poder aquisitivo é maior na capital. Em São José, o consumo nas regiões nobres da cidade é 38,2% maior

Esgoto
Universalização
Atualmente, de toda a água consumida em São José, segundo a Sabesp, 89% é coletado e tratado, antes de ser despejado no Rio Paraíba. A Sabesp promete universalizar o tratamento de esgoto em todo o Vale do Paraíba, alcançando 100%, até 2014

Um comentário:

  1. Para dados científicos:

    http://www.iwaponline.com/wst/03403/wst034030071.htm

    Water Science and Technology Vol 34 No 3-4 pp 71–77 © IWA Publishing 1996

    Estimation of domestic wastewater characteristics in a developing country based on socio-economic variables

    H. M. Campos and M. von Sperling

    Department of Sanitary and Environmental Engineering, Federal University of Minas Gerais, Av. Contorno 842 - 7o andar 30110-060 Belo Horizonte Brazil
    ABSTRACT
    The paper presents the analysis of data related to the domestic wastewater characteristics from several areas situated in a large Brazilian city. Simple regression models are presented for the prediction of basic wastewater characteristics, such as water consumption (l/inhab.day), wastewater production (l/inhab.day),BOD load (g/inhab.day) and BOD concentration (mg/l). The models are based on simple socio-economic variables, with special attention to the easily obtainable variable of total family income (number of minimum salaries earned per month). Most of the models are able to give an excellent prediction of the desired wastewater variables. Additionally, the behaviour of the main wastewater characteristics according to the hour of the day and the day of the week are analysed. Based on the results obtained, it is suggested that the classical figures of BOD concentration of 300 mg/l and per capita BOD load of 54g/inhab.d do not apply to the typical population predominant in most areas of Brazil. The actual BOD concentrations are frequently higher than 300 mg/l, while the BOD load is frequently lower than 54 g/inhab.d. The results obtained can be used for design purposes in the areas studied, and possibly in areas of similar characteristics, substituting the classical figures obtained from foreign textbooks.

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